Pular para o conteúdo principal

Por uma F-1 mais interessante vale um campeonato com 25 corridas?

A Fórmula 1 passou anos e até décadas com calendários que comportavam nove ou dez corridas, depois o padrão de 16 etapas se tornou quase que obrigatório e os fãs se acostumaram a ver desta forma, e mais recentemente nos anos 2000, a lista foi ampliada para 20 ou 21 disputas por ano, o que já fez os times e os integrantes das equipes chiarem um bocado. E foi aí quando da entrada da Liberty Media para gerir a categoria que surgiu a proposta de que a sequência de provas poderia chegar até a 25, um padrão parecido com a NASCAR americana, que já correu menos, porém já há vários anos se reúne para 36 eventos anuais. Um exagero? Mais atratividade para o público? Seria o show dos shows? É sobre isso que buscaremos refletir a seguir neste texto.

Em Abu Dhabi no ano passado os competidores partiam mais uma vez para a disputa após uma longa temporada que durou de março a novembro. 

Pela categoria as disputas oficiais começaram em 1950, quando apenas sete corridas foram agendadas no ano em que Nino Farina alcançou a fama e a glória de ter sido o primeiro de todos a levantar um caneco de forma oficial na história da Fórmula 1. Seria um campeonato até impensado para os dias atuais, com míseras sete corridas, mas naquela época já representava uma preparação e tanto. Interessante notar que já em 1958 eram 11 etapas com a última acontecendo no Marrocos e a expansão pelas décadas seguintes quase não teria limites. Assim como a parte de desenvolvimento, de organização das equipes e o uso da tecnologia, tudo mudou. Portanto não seria diferente com os palcos a serem utilizados. A década de 1960 viu poucas mudanças com o número girando justamente entre onze e doze participações por temporada, porém nos anos 1970, a TV passava a transmitir com mais afinco e melhor qualidade as corridas e chegou um “tal” de Bernie Ecclestone que conseguiu até rapidamente unir equipes e organizadores para propor contratos com uma visão bem mais empreendedora e profissional no esporte. Os acordos para levar o campeonato mundial a novos lugares elevavam a disputa para um novo patamar e Bernie conseguiu organizar melhor a coisa toda para uma nova direção que representaria os rumos das corridas conforme até então conhecíamos. Já em 1973 eram 15 etapas e em 1977 outras 17 que foram colocadas no “esquema”. A participação de Bernie, então dono da Brabham, começou já a render frutos nos primeiros anos daquela década e aí o calendário não parou mais. Pelo período dos anos 1980 e 1990 o número sempre girou em torno desses 15 ou 16 nomes, porém o “boom” aconteceu de fato nos anos 2000: em 2004 foram 18 corridas e em 2005 outras 19 etapas. Locais como Bahrein, China e Turquia entraram na jogada sempre com muito dinheiro para bancar as novas participações com valores estratosféricos a serem cumpridos em relação a décadas anteriores.

Apesar do hiato de disputas oficiais da categoria em Paul Ricard, na França, que já foi tido como o autódromo mais moderno do mundo, alguns pilotos testaram por aquele traçado ao longo do tempo nas últimas décadas. Alonso foi um deles com a Renault.

Apesar dos diversos circuitos com o famoso traçado “Mickey Mouse” gerados, idealizados e tirados do papel para a prática pelo “grande guru” dos projetos: o alemão Hermann Tilke, que se tornou o criador oficial de novos desenhos para a categoria, um fato que começou até que timidamente com a pista de Sepang, na Malásia, no ano de 1999. Naquele período as suntuosas instalações foram consideradas as mais modernas entre todos os paddocks visitados. O conceito de traçado extremamente travado e de difícil ultrapassagem, com trechos até estreitos e de muito trabalho para a pilotagem creio ter surgido mais quando da entrada de TI Aida como GP do Pacífico entre 1994 e 1995. O circuito no Japão era bem complexo de entendimento e infelizmente proporcionava poucas disputas de forma mais efetiva. Voltando a falar mais especificamente do número de provas vale lembrar que a atual década viu um 2016 com 21 corridas e o ano passado reservou 20 disputas. O próprio Ross Brawn, agora comandando as ações técnicas da categoria havia declarado que o grupo formado por ele, Sean Bratches na parte comercial e o todo poderoso Chase Carey estavam estudando a possibilidade de ampliar cada vez mais o calendário. Até um GP do Vietnã vem sendo considerado para os próximos anos. Isso assustou equipes e até pilotos. Nomes como Fernando Alonso e Lewis Hamilton estranharam bastante a possibilidade.

O belo e veloz traçado de Paul Ricard foi sendo atualizado e modificado ao longo do tempo e, é claro, ganhou também as famosas áreas de escape asfaltadas e com pinturas destacadas.

Para esse novo cenário eu acho que seria interessante sim um calendário maior e por mais que isso venha a dar muito mais trabalho para as equipes, acho que seria ainda mais dinheiro que todos os envolvidos ali poderiam ganhar, de fato. Porém acho que esse aumento deva acontecer de forma estudada e gradual, realmente aos poucos. Não pode uma temporada com 19 ou 20 corridas e aí de repente na outra já 25 para tentar “evoluir” logo o esporte aos novos e concorridos tempos que passam tão depressa quanto a velocidade dos carros da categoria. Ficaria uma coisa sim de estilo NASCAR o qual muitos fãs, inclusive, são contra, acham que o modelo atual já é mais do que o necessário e, portanto, até suficiente. Porém, a meu ver, acredito que mais provas e inclusive misturando o conceito das clássicas e históricas com novos locais traria realmente um bom atrativo. Acho que locais como Zandvoort e Turquia poderiam voltar ou até mesmo a Argentina com o novíssimo circuito de Termas de Rio Hondo onde corre a MotoGP. Portugal tem um traçado padrão atual com o circuito no Algarve e seria uma grata surpresa ver o país de volta também. E assim novos traçados interessantes e até de rua poderiam se misturar a essa lista: assim como falam no já citado Vietnã, outras etapas já tão desejadas há muito tempo nos EUA podem acontecer. A maior vontade dos organizadores é proporcionar uma corrida de luxo em Las Vegas por exemplo, longe daquelas ideias de circuito em estacionamento que aconteciam no início dos anos 1980. Um circuito de rua em Londres também já foi pensado e não seria exagero pensar nessa ideia para ser colocada em prática também.

A F-1 já passou por Las Vegas porém em etapas que pareciam mais uma aventura e até um pouco amadoras. A ideia dos tempos atuais é que a categoria retorne de forma marcante e definitiva.


Portanto acho que as formas são as mais variadas para proporcionar espetáculo ao público e o calendário cheio deve sempre ser uma delas. Gunther Steiner, um dos homens que comanda a Haas, já havia falado que topa o calendário mais “inchado” desde que as etapas em países com proximidade sejam feitas em “pacote”. Claro, a organização e o pensamento no sentido geral sempre são necessários para facilitar as coisas. Equalizando passado e atualidade acho que tornará ainda mais interessante essa nova lista e a F-1 poderá atrair ainda mais público, atenção e dinheiro. Vale lembrar que em 2018 teremos o retorno da clássica Paul Ricard e a primeira corrida na França em dez anos. Desta forma o calendário volta a ter 21 datas marcadas. Quanto aos pilotos creio que no começo eles todos como também os integrantes das equipes possam protestar, mas nada que o costume e o maior faturamento não façam as reclamações e ponderações serem colocadas de lado.

Texto a ser publicado também na página do Pop Bola Esporte Clube.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

GP do Canadá traz boas memórias de Gilles Villeneuve

A pista da Ilha de Notre Dame, no Canadá, será palco da sétima etapa da Fórmula 1 2017 no próximo final de semana. O traçado que mistura elementos de circuito de rua e também pista permanente (as tradicionais) sempre traz na memória dos fãs belos momentos de Gilles Villeneuve, herói que nasceu no país e deu verdadeiros shows com o carro da Ferrari naquele local. A percurso em Montreal estreou na categoria no ano de 1978, mas vale lembrar que a F-1 já havia corrido antes em solo canadense tanto em Mosport como também Mont-Tremblant. Porém naquela oportunidade de um local para disputa no qual os pilotos ainda não conheciam, foi exatamente o piloto local Gilles Villeneuve que ganhou a primeira corrida da carreira pilotando o carro da Ferrari. Era apenas o segundo ano do competidor no topo do automobilismo mundial. Mesmo tendo a responsabilidade de substituir Niki Lauda na  Scuderia , ele mostrou todo o potencial logo de cara para a felicidade do  comendador  Enzo ...

F-1 passa a olhar mais para o lado humano buscando se reinventar como esporte

O GP da Espanha reservou muitas emoções, inclusive na briga pela ponta na qual Hamilton e Vettel protagonizaram um duelo marcante e que deve sinalizar o que teremos na sequência do campeonato, mesmo com alternâncias entre alguns resultados. Podemos citar o próprio inglês como destaque, a bela largada de Vettel, o excelente desempenho dos dois carros da Force India, e ainda o talento de Wherlein para levar um fraco carro da Sauber ao oitavo lugar. Além disso a prova ainda teve Fernando Alonso pela primeira vez finalizando um evento da F-1 no ano com a McLaren fora da zona de pontuação, mas ainda comemorando o “feito” obtido na terra natal.  Bastou Kimi Raikkonen abandonar a etapa com uma suspensão destruída que Thomas rapidamente demonstrou a tristeza de ver o ídolo fora da disputa. A reação espontânea de um fã mais que especial. Foto: Reprodução de TV. Porém os holofotes, ou boa parte deles, foram direcionados para o jovem francês Thomas Danel, de apenas 6 anos! O efusivo...

Uma Indy 500 com menos adrenalina em 2018

O australiano Will Power venceu a edição 102 das 500 milhas de Indianapolis no último domingo, porém as poucas disputas ao longo da prova desagradaram a maioria dos fãs e aficionados da Fórmula Indy. Mesmo especialistas e profissionais que trabalham cobrindo o certame também expressaram a surpresa de assistir uma das corridas que menos chamaram a atenção nos últimos anos em Indiana. O renovado kit aerodinâmico rapidamente se tornou a aprovação estética total por parte de todos, mas a falta de competitividade nas provas, tanto na Indy 500 como por exemplo em Phoenix há alguns meses evidencia que mais mudanças são necessárias. O americano Ed Carpenter correndo com a equipe própria alcançou mais uma impressionante pole position no mítico oval e foi um dos ponteiros durante a maior parte da corrida, mas lamentou que não tenha arriscado tanto para brigar pela ponta da maior etapa do automobilismo mundial. Terminou na segunda colocação, um resultado e tanto para ser aplaudido. Os carro...