Franchitti pilotando o Mercedes-Benz pelo ITC em Silverstone 1996 - Foto: shop.simonlewis.com
Por James Azevedo
Se nos dias atuais, podemos
contar nos dedos a presença de grandes campeões que gravaram de fato seu nome
na história e continuam competindo, a lista é ainda mais limitada quando nos
referimos a aqueles que o fizeram com carisma e sem atos de estrelismo. Um
desses exemplos não teve outra escolha a não ser pendurar as luvas: este nome
atende pelo tetra-campeão da Indy Dario Franchitti, que encerra carreira de dezessete
anos de maneira inesperada neste final de ano.
Sua carreira passou por relativo
sucesso no automobilismo inglês, até ser contratado em 1995 pela equipe
Mercedes no campeonato que rivalizava com Indy e F1 como os maiores do mundo naquele momento: o
turismo alemão DTM. Ao mesmo tempo disputando o ITC (certame que utilizava os
mesmos carros, só que em disputas ao redor do mundo, inclusive o Brasil)
conquistou duas vitórias e começou a estabelecer sua reputação.
Com o Reynard-Mercedes da Hogan Racing em seu primeiro ano na Indy-CART em 1997 - Foto: Divulgação
Com o fim do DTM/ITC devido aos
altos custos, a Mercedes o recomendou para uma vaga nos Estados Unidos pela
CART (a até então Fórmula Indy, que se tornou uma das categorias resultantes da
divisão ocorrida em 1996) na equipe Hogan, um time com desempenho mediano. Logo
ao chegar mostrou ser um piloto muito rápido e ousado, por vezes brigando e
disputando as primeiras posições, mas em outros momentos envolvido em acidentes
e rodadas um tanto infantis.
Perdeu grande oportunidade em Toronto, onde
estabeleceu sua primeira pole-position na carreira, mas foi tirado logo na primeira
curva pelo veterano Bobby Rahal. Ao final da temporada começou a negociar com
um time maior para 1998, a Green, e o
dono do time em que corria, Carl Hogan, descobriu e o mandou embora antes mesmo
da etapa final em Fontana, sendo substituído pelo showman Robby Gordon.
Paul Tracy e Dario Franchitti na apresentação do Team Green, em 1998. - Foto: Divulgação
Em 1998, teria como companheiro
de equipe outro competidor que chegava ao mesmo momento no time Green, o canadense Paul
Tracy, que não obteve desempenho satisfatório neste ano e ficou mais conhecido
como o “senhor apronta tudo”. Já Franchitti colheu os louros de seu até rápido
amadurecimento: alcançou três vitórias e a terceira posição no campeonato, se mostrando
bastante consistente ao longo do ano, somando-se junto de sua velocidade pura. Se
consistência passou a ser sua característica, ela retornaria para 1999, onde venceu iguais três provas, mas foi tão regular que chegou a etapa final em
Fontana, disputando diretamente com o estreante Montoya, da Ganassi, que acabou
levando a melhor ao levar a taça, mas com a mesma pontuação: 212. O critério de desempate se
deu pelo número de vitórias, onde Montoya indiscutivelmente se beneficiou com
seus sete triunfos. A partir dali, o nome do escocês quase sempre figuraria
entre os melhores no automobilismo americano, mas isso quase mudou por dois
detalhes que viriam logo a seguir.
O escocês na primeira prova de 1999 - Foto: indyphoto.com
Para o início do novo século, no
ano 2000, Dario permaneceria com sua equipe de sucesso, mas já no início da
temporada sofreu um devastador acidente nos treinos pré-temporada (os famosos
Spring Training) em Homestead onde machucou seriamente o pescoço e estas
seqüelas o acompanhariam pelo resto das etapas daquele período, afetando seu
desempenho, que resultaram apenas em um fraco décimo terceiro lugar na tabela,
sem vitórias. Somando-se a isso, pensou em se transferir para a F1 pelo time
emergente Jaguar, mas seus tempos de volta nos testes foram muito ruins (não se adaptou) e a transferência foi
imediatamente descartada. 2001 foi igualmente para se esquecer, mas pelo menos
conquistou um grande prêmio na confusa prova do traçado de aeroporto de
Cleveland. Em 2002 com nova bela pintura conseguiu mais três vitórias para seu currículo. Em 2003, um novo
desafio: se mudar para a nova menina dos olhos dos patrocinadores, a categoria
IRL (correndo agora pela equipe chamada de Andretti-Green - uma fusão), que sempre rivalizou com a CART e conseguia, enfim, alcançar maior espaço
de mídia e torcedores ao sondar e atrair equipes famosas com Penske, Ganassi e
a própria Green. O piloto disputou poucas provas naquele ano devido a mais um
problema físico relacionado a uma queda de moto em sua terra natal, a Escócia.
Ficou fora praticamente de todo o ano, retornando apenas em 2004, e em alto
estilo, com duas vitórias em ovais seguidas de mais duas em 2005. Na
temporada seguinte outro ano sem resultados expressivos fariam imaginar
naqueles que acompanham o circo da categoria que o tempo de Franchitti já havia
passado e ele poderia ser considerado um piloto de mediano para bom com algumas
realizações dignas de nota durante seus anos no esporte.
Com o carro da Andretti-Green, ele se classifica para as 500 milhas de 2004 - Foto: autoweek.com
Mas os que pensaram assim estavam
enganados: 2007 mostrou um outro “racer” em um pacote perfeito: com o talento
de outrora de volta, juntamente com um equipamento de primeira e a sorte
essencial e destinada aos grandes campeões. Em maio, venceu sua primeira 500
milhas de Indianápolis encerrada antes das 200 voltas pela chuva, em duelo com
Tony Kanaan. Somou mais três vitórias e nem dois vôos consecutivos e perigosos
no intervalo de uma semana durante as provas de Michigan e Nashville o abalou
para chegar ao final, em Chicago, e contar mais uma vez com a sorte, quando
Scott Dixon ficou sem combustível na última volta e abriu caminho para o
primeiro título do escocês voador e sua tão esperada consagração.
Sob chuva, comemora sua primeira 500 milhas, em 2007. - Foto: autosport.com
Em 2008, era chegada a hora de
mudar de ares, e Dario arriscou uma nova
categoria, a NASCAR, onde correu pelo time da Chip Ganassi, porém apresentou
desempenho pífio, com muitas dificuldades ao longo do decorrer das etapas e já
no ano seguinte retornou para a Fórmula Indy, seu “terreno conhecido”, mas
ainda por esse mesmo time.
E foi nesta temporada de 2009 que disparou a sua “fase de ouro” onde dominou a categoria de forma avassaladora com três campeonatos conquistados de forma seguida, treze vitórias e duas delas nas famosas 500 milhas, sendo a última, em 2012, extremamente marcante e épica onde “driblou” o japonês Takuma Sato na última volta após quase 800 km de disputa, para seguir vitorioso ao “círculo da vitória”. Takuma terminou se acidentando e vendo suas chances de vitória voarem junto com os pedaços de seu carro.
Dario retorna para a categoria com um visual a lá Elvis - Sonoma 2009 - Foto: allcarcentral.com
E foi nesta temporada de 2009 que disparou a sua “fase de ouro” onde dominou a categoria de forma avassaladora com três campeonatos conquistados de forma seguida, treze vitórias e duas delas nas famosas 500 milhas, sendo a última, em 2012, extremamente marcante e épica onde “driblou” o japonês Takuma Sato na última volta após quase 800 km de disputa, para seguir vitorioso ao “círculo da vitória”. Takuma terminou se acidentando e vendo suas chances de vitória voarem junto com os pedaços de seu carro.
Disputando uma etapa em Toronto, Canadá - ano 2009 - Foto: theepochtimes.com
Em 2013, as coisas já começaram
diferentes pois se separou da famosa atriz Ashley Judd em Janeiro, com quem estava casado
há doze anos e talvez por isso, também somando-se ao fraco rendimento dos
motores Honda na primeira metade da disputa, seu desempenho foi discreto e
passou a alcançar pontos preciosos e pódios apenas na segunda fase. Seria mais
um fim comum de temporada, quando na segunda prova do final de semana em
Houston (penúltima geral do ano), Dario vinha mais uma vez em disputa com Sato,
mas desta vez, o próprio escocês levou e muito a pior: tocou a traseira do
piloto da equipe AJ Foyt e decolou de encontro as grades de proteção do
circuito de rua, batendo e ricocheteando de volta para a pista em cima do eixo
do carro. Por pouco não caiu para fora do traçado e não acertou seu equipamento no
público que ali acompanhava tudo pela arquibancada. Franchitti sobreviveu a um
acidente devastador do ponto de vista material, permanecendo inclusive
consciente até a chegada dos médicos e fiscais ao local, mas o resultado
posterior não foi nada animador: quebrou três vértebras, um tornozelo e ainda
sofreu concussão cerebral, estando imediatamente vetado para a etapa de
encerramento logo a seguir, onde foi substituído por Alex Tagliani.
Concentração dentro do cockpit - Foto: Divulgação
Passada a etapa final, de forma inesperada
veio o anúncio: Dario Franchitti estava encerrando sua carreira aos 40 anos de idade
devido a recomendações médicas. Todas as pessoas envolvidas com a categoria se
mostraram surpresas e tristes com a notícia e demonstraram solidariedade com o
veterano piloto. O escocês se pronunciou e explicou o porque de sua decisão,
apesar de não achar que era momento de parar ainda: "Baseado no conselho dos médicos, não
tenho escolha a não ser parar. Correr foi minha vida durante 30 anos e é muito
difícil pensar que o lado de piloto está encerrado. Amo correr e agora irei
trabalhar com a Chip Ganassi para ver como posso ficar envolvido com o time e
com os amigos incríveis que eu fiz ao longo dos anos".
Sequência do acidente em Houston - Montagem: dailymail.co.uk
Após o susto da notícia, os fãs e os
próprios envolvidos no circo da Indy procuram se acostumar com a ideia repentina de
que o carro #10 terá outro piloto que não é o simpático porém cerebral escocês voador.










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