Massa tem momento emocionante ao voltar para os boxes depois de abandono em Interlagos. - Paulo Whitaker/Reuters
Felipe Massa teve altos e baixos durante a carreira de 15 anos na Fórmula 1. Pelo lado positivo as 11 vitórias na categoria, todas com a Ferrari, e o vice-campeonato mundial de 2008 quando perdeu nos últimos instantes o título para Lewis Hamilton. Dentre as ultrapassagens marcantes podemos citar como em provas disputadas tanto no Canadá em 2008 ou ainda a famosa Fuji 2007 contra Robert Kubica. Porém, Massa infelizmente também ficou lembrado pela irregularidade na busca por resultados consistentes ao longo da disputa em campeonatos e o acidente de 2009 durante os treinos na Hungria, tudo isso pela longa trajetória do competidor.
No último GP Brasil da carreira, o brasileiro que disputou 250 corridas e passou por Sauber, Ferrari e Williams, acabou rodando e batendo na subida da reta dos boxes, encerrando assim aquela que poderia ser uma prova de glória para o piloto. Se o resultado não foi dos melhores, a saída do carro e a volta andando a pé para os boxes foram das mais emocionantes da história da categoria! Massa pegou a bandeira do Brasil e foi caminhando lentamente, chorando, além de ser ovacionado pela torcida. De quebra, os mecânicos de equipes como Mercedes, Ferrari e a própria Williams bateram palma e abraçaram o piloto, parando diante dele para acompanhar aquele momento nos pits. Se Felipe sai como vitorioso na atitude e respeito do paddock, inclusive pelo mundo também, no Brasil a coisa é bem diferente, com extremas críticas e até xingamentos ao desempenho do piloto que, ao contrário da geração fora-de-série com Emerson-Piquet-Senna,
Isso tudo vem do complexo e o costume do brasileiro, uma tradição por aqui na qual se espera sempre apenas o melhor, o primeiro lugar. Caso o competidor, seja em qual esporte for, ficar em segundo, já é o motivo para o atleta não seja considerado. Massa não está entre os maiores da história da Fórmula 1, não teve temporadas inteiras avassaladoras e nem foi um fora-de-série. Mas apresentou desempenhos que o colocam sim na memória daqueles que acompanharam as corridas durante o período de uma década e meia neste século XXI. Existem vários níveis de qualidade entre aqueles que competem no topo do nível técnico em qualquer modalidade. E Massa fez por merecer estar em equipes de ponta na maior parte da carreira. O problema foi não ter superado na maior parte do tempo rivais bem mais acima dele, como Alonso, por exemplo. Durante o primeiro ano na Ferrari, bateu em algumas ocasiões o maior de todos os tempos nas estatísticas, Michael Schumacher.
Massa ainda teve o terrível acidente da Hungria em 2009, no qual ficou o resto do ano fora devido a pancada no capacete da mola que saiu do carro de Rubens Barrichello durante um dos treinamentos. Felipe teve realmente muita sorte de sair vivo da situação e ainda sem maiores sequelas e sempre destacou que nada havia mudado para ele desde aquele período. Porém, apesar de alguns resultados animadores em 2010, no retorno à categoria, o desempenho nunca mais foi o mesmo. Para NÃO ajudar, a troca de posições na Alemanha, em 2010, parece ter encucado e atrapalhado o piloto durante um bom tempo da trajetória na Ferrari. Apresentava em determinados campeonatos metade de temporada muito ruim, abaixo da média, e depois se recuperava na outra metade com resultados na zona de pontuação e ainda alguns pódios, como no Brasil em 2012. Fica aí talvez o que tenha faltado para Massa ter sido campeão: a consistência. Nesse quesito, até Rubens Barrichello se apresentava mais próximo de Schumacher e terminava no pódio com maior frequência.
Pela Williams, o ano de 2014 foi excepcional para Felipe Massa. A troca de ambiente e de equipe dava um ânimo a mais, e para ajudar naquela temporada o time inglês que não havia marcado pontos no ano anterior, voltou a fazer um grande carro, mas esbarrou em uma Mercedes já absoluta. Massa não venceu mas constantemente fazia grandes corridas, marcou pole position e ainda terminou por vezes no pódio assim como o companheiro Valtteri Bottas. Fechou em um honroso terceiro lugar na tabela de pontos, e ali era o canto de cisne, já que em 2015, tanto equipe como piloto caíram de produção e em 2016 mais ainda. Times como a própria Ferrari, a Red Bull e a Force India rapidamente dominaram o cenário que havia sido conquistado pela Williams. E Massa, tendo ainda possibilidades de negociar com equipes como a Renault, percebeu que as possibilidades de cockpit competitivo haviam diminuído e decidiu pendurar as luvas, o capacete e o macacão da maior categoria de monopostos do mundo.
Agora imagine se o excepcional e até hoje lembrado Gilles Villeneuve, dono de apenas seis vitórias na Fórmula 1, fosse brasileiro? Nas estatísticas e resultados o canadense não representa aquilo que fez nas pistas de bravura e guiada incrível e única, de puro talento. Mas exatamente pelo carisma e grande pilotagem ficou registrado na memória e nas belas imagens dos anos 70 e 80. Se Gilles fosse brasileiro talvez fosse "massacrado" de críticas por aqui devido a não ter conseguido títulos como outros competidores...
Se o desempenho da Williams caiu muito, talvez Massa tenha percebido também que a idade vem chegando (já tem 35 anos), e o próprio desempenho e motivação haviam também decaído. Vinha tomando constantemente tempo do companheiro, o rápido e perspicaz finlandês Bottas. Portanto apesar dos últimos anos e resultados, Massa sai sim com respeito e por cima. Muitos foram os pilotos que gostariam de ter trilhado parte do que ele conseguiu e/ou terem ficado tanto tempo em times importantes. Agora o foco vai para a sequência da vida, e que provavelmente deve recair na Fórmula E, a categoria dos carros elétricos. Se os bólidos ainda são lentos, correm quase que sempre em traçados de rua, e durante as corridas ainda é necessário a troca de carros pois as baterias ainda não duravam o necessário, talvez tudo melhore em breve. A categoria pretende implementar carros com autonomia melhor para durar uma prova inteira e já se estuda a possibilidade também de correrem em mais circuitos fechados. O México inclusive recebeu recentemente uma prova da Fórmula E no Hermanos Rodríguez.
A escolha de Massa pela Fórmula E se daria devido a popularidade e evolução da categoria em pouco tempo. Opções como o WEC e DTM também tiveram reduções nas categorias e saída de equipes e montadoras, portanto, ao menos por enquanto, o turismo não parece ser um caminho de sequência para o competidor que mais subiu ao pódio no GP Brasil, e se tornou o segundo competidor que mais correu na equipe Ferrari na Fórmula 1.

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