Neste mês de julho o mundo do
esporte a motor perdeu um de seus principais nomes, afinal Morris Nunn faleceu
aos 79 anos de idade após ter sofrido por anos com o Mal de Parkinson. Ele fez
história tanto na Fórmula 1 como também na Indy ao trabalhar durante um longo
período como engenheiro de importantes times ou ainda ter participado como
chefe em equipes que se tornaram tradicionais. Inclusive “Mo Nunn” como também
ficou conhecido trabalhou diretamente com alguns dos principais pilotos
brasileiros como Nelson Piquet, Tony Kanaan e Felipe Giaffone.
Mo Nunn alcançou duas vitórias na Fórmula Indy, e uma delas com Felipe Giaffone na pista de Kentucky em 2002.
Nascido na cidade de Walsall, na
Inglaterra, Nunn bem que tentou seguir a carreira de piloto inclusive com uma
passagem pela Fórmula 3, mas sem sucesso. Foi então que ele decidiu se tornar
chefe de equipe e durante os anos 1970 criou a Ensign, equipe que viria a
empregar pilotos importantes da F-1 naquele período. Tudo começou em 73 com a
presença de Ricky von Opel (um competidor pagante) a bordo de um cockpit do
time. Vale lembrar que ainda naquela fase da categoria com um menor custo para
se conseguir competir, recorrer a esses artifícios já era necessário, uma
realidade do automobilismo ao ser um esporte de altos custos e principalmente
equipes mais modestas no quesito financeiro.
Em uma época que os carros
abandonavam devido a diversos tipos de falhas e quebras no equipamento, vinha
sendo difícil a vida da Ensign, já que apenas em 1975 o holandês Gijs van
Lennep conseguiu um resultado mais digno de nota com a equipe, um
sexto lugar na Alemanha. O time permaneceria na Fórmula 1 até 1982, tendo como
melhor resultado um honroso quarto lugar de Marc Surer no GP do Brasil de 1981.
Em 1978, Mo Nunn deu a primeira oportunidade para um jovem Nelson Piquet
estrear na categoria em Hockenheim, na Alemanha. A prova acabou depois de
apenas 31 voltas por um problema de motor, mas ali já estava assegurada a
entrada do competidor que viria a ser tricampeão mundial. A partir de 1984, Mo
Nunn passou a atuar como engenheiro em diversos tipos de equipes na Fórmula
Indy, também então conhecida como CART.
Com a equipe própria chamada Ensign, Mo Nunn contratou Clay Regazzoni para a temporada de 1980 na Fórmula 1.
Passou pela Patrick Racing e foi
fundamental na conquista de Emerson Fittipaldi na Indy 500 e do campeonato em
1989. Em 1995 já estava na Chip Ganassi Racing auxiliando a promessa Bryan
Herta que largou na trigésima terceira e última colocação para finalizar em
décimo terceiro durante a derradeira 500 milhas de Indianápolis antes da cisão
que originou a IRL no ano seguinte. Diante da divisão da categoria em duas,
Morris Nunn ficou com o time que se tornaria um dos mais vitoriosos de todos os
tempos na categoria. Sábia decisão! A parceria rendeu frutos que são comentados
ou lembrados pelos entusiastas e fãs do esporte até hoje. Em um período de
quatro anos, a equipe Ganassi conquistou títulos com Jimmy Vasser (1996),
Zanardi (1997 e 1998) e ainda Juan Pablo Montoya (em 1999). “Varreu” a
categoria como poucos fizeram na conquista de vitórias e taças de campeão. Interessante
destacar também que partiu do próprio Nunn a indicação do veloz colombiano (que
até então estava na Fórmula 3000) para a vaga do bicampeão Zanardi.
O atual diretor e engenheiro da
Ganassi, Mike Hull, disse ao IndyStar que Morris Nunn era uma pessoa que
“vivia, respirava e consumia corridas”. A cultura vitoriosa que continuou no grupo
mesmo após a saída do inglês, de acordo com Hull, deve-se aos ensinamentos
deixados por “Mo” dentro do time: “ Eu pessoalmente devo muito a ele pois me
ensinou o quanto você pode alcançar se acertar a sua mente e nunca aceitar o
que algumas pessoas consideram como uma forma convencional de resolver os
problemas”. Pela oportunidade dada a Tony Kanaan, o brasileiro já se mostrava
realmente grato ao então chefe de equipe no ano de 2002: “Eu devo a eles várias
coisas desde que eu me juntei ao time, eu ainda devo a eles uma vitória”. E
Tony passaria no total três anos no time, mas sem conseguir o lugar mais alto
do pódio.
Aqui ao lado de Mario Andretti, Mo Nunn também passou pela equipe Newman/Haas na década de 1980.
Para o ano 2000 seria um cenário
um tanto diferente para ambos os lados. Mo Nunn decidiu formar a própria equipe
na Indy (voltando para a posição que ocupava até o início dos anos 1980 na
Fórmula 1), e a Ganassi embarcou em uma nova empreitada com os chassis da Lola
e motores Toyota, ao contrário do conjunto vitorioso da Reynard/Honda. Para o
início de uma nova jornada na Indy, o brasileiro Tony Kanaan foi contratado
como único piloto do time e também com patrocínio tupiniquim da Hollywood. O
vencedor das 500 milhas dos Estados Unidos em 1999 já havia passado pela Tasman
e McDonald’s Forsythe obtendo bons resultados e acumulando boa experiência.
O fato de trabalhar com Mo Nunn
fez Tony vislumbrar que em breve lutaria também pelo título a exemplo do que
havia acontecido nos anos anteriores com a Ganassi. Mas não foi o que
aconteceu. Em entrevista no ano de 2004 para a Autosport, Tony disse que tempos
depois ele “passou a entender que você precisa mais do que um engenheiro, mas
sim de um time todo, e a equipe era nova”. Como o motor Mercedes também já
vinha sofrendo com falta de rendimento mais considerável, a temporada realmente
passou aquém das expectativas.
O acidente nos treinos de Detroit
quando quebrou um braço e perdeu três corridas também não ajudou, sendo três
oitavos lugares o melhor resultado obtido naquele ano. Para 2001 a equipe
contaria com um segundo carro e uma presença de “peso”: o italiano Alex Zanardi
voltava para a categoria após passagem fraca pela Fórmula 1, e o time contaria
com os potentes motores da Honda. Tony é claro se animou, porém começou a
perceber que os problemas que impediam seu carro de alcançar melhores posições
ao final das corridas aconteciam também com o companheiro de equipe bicampeão
da categoria. Ainda naquela temporada outro duro golpe atingiria a todos na Mo
Nunn quando Zanardi sofreu um grave acidente durante a corrida de Lausitz, na
Alemanha, e perdeu as duas pernas.
Assim como em Long Beach 1980
(quando Clay Regazzoni ficou paraplégico após acidente no final da reta dos
boxes) o experiente Morris Nunn passava novamente pelo que o automobilismo pode
trazer de mais triste: a tragédia nas pistas de corrida. Ambos italianos,
Regazzoni e Zanardi sobreviveram, mas com as sequelas que marcam uma vida para
sempre. Já pelo lado positivo, o brasileiro Felipe Giaffone alcançaria dois
resultados importantes com o time, mas pela rival da CART, a Indy Racing
League. Um terceiro posto nas 500 milhas de Indianápolis quando tinha chances
de vitória, e o primeiro lugar durante a prova de Kentucky, os dois momentos
durante a temporada de 2002.
Mo Nunn comandando a equipe que tinha como piloto Felipe Giaffone em 2002 na Indy Racing League.
Em sua conta no Instagram,
Giaffone disse que Nunn foi “a pessoa que melhor me tratou até hoje. Com ele
aprendi detalhes que uso até hoje na Copa Truck e com ele tive meu acidente
mais sério na carreira. Nos separamos pois não arrumamos verba suficiente para
continuar de forma decente. ” É sempre interessante avaliar o quanto Morris
Nunn marcou a vida de diversos pilotos mesmo que as equipes comandadas por ele
não tenham sido sempre no topo de desempenho das corridas.
Mo Nunn ainda conquistaria com
Alex Barron uma importante vitória no oval de Michigan em 2003 e ainda contou
com pilotos como o japonês Toranosuke Takagi a bordo de seus carros naquele
período. Seguiria trabalhando no automobilismo até 2005, quando participou de
uma parceria no carro da Fernandez Racing para a prova das 500 milhas de
Indianápolis. Após esse evento, decidiu fechar o time e aproveitar a vida de
outras formas. Felipe Giaffone disse ainda que “continuou na Indy em equipes
pequenas” e Mo Nunn “foi jogar golfe”. Nos últimos anos e fora dos holofotes no
cenário da velocidade, o inglês aproveitou a aposentadoria, mas sofrendo com
problemas de saúde até o momento do falecimento na última semana.
Mesmo entrando em uma pista de
corridas pela primeira vez apenas aos 24 anos de idade, a partir daquele
momento a vida de Morris nunca mais foi a mesma e ele deixa um legado de pura
paixão, dedicação, interesse e busca pelo topo dentro do automobilismo. Exemplo
de garagista e entusiasta que dedicou a maior parte da vida para fazer tudo com
excelência. E mesmo assim deixou excelentes lembranças a todos que lidaram ou
trabalharam com ele. Uma história que nem Hollywood faria melhor! Essa foi a
trajetória que o consagrou como uma lenda pela forma que permaneceu dentro do
esporte e por tanto tempo. Vá em paz, Morris Nunn! O seu legado será
devidamente lembrado nos circuitos pelo mundo!
Texto a ser publicado também no site Amigos da Velocidade.
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